terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Conceitos, referências e desdobramentos

“Quinze caras lá fora diversos calibres
Eu apenas com uma treze automática
Sou eu mesmo e eu
Meu Deus e meu Orixá.”

Homem na Estrada, Racionais MC’s


“O artista é aquele que tem por obrigação trazer a tona o novo, o impensável, a nova técnica, o novo estilo uma releitura ou algo que se reconheça como autêntico e original, mesmo que sua criação não esteja dentro dos padrões de beleza desejados pelo mercado das artes. Porém para se obter esta tão desejada autenticidade é necessário estudar. As formas as cores, as texturas os suportes os volumes, as palavras... seja lá qual for o suporte utilizado pelo criador-artista.” ¹

“O título e trecho da canção, dos racionais MC’s revela um dialogo da ancestralidade contida no insight do artista e na sua criação, um exemplo de transcendência do estado físico da obra que pode falar por uma boca que não é só do artista, esculpir com mãos que não são somente as dele, o escrever, o pensar, o agir. Abrir a boca ancestral inconsciente que permite a expressão de diversas formas artísticas.” ²


¹ e ² trecho do livro Exú em Debate


Orí,
O supremo, o alto, a cabeça.


Orí, na etimologia Iorubá significa: Cabeça, morada do alto. Em alguns casos refere-se ao Deus supremo, Olodumaré ou Olorum.
"E, para inicio e fim de tudo, movimento...” é o primeiro capitulo da serie “Ori”, uma novela que contará nas ruas da cidade de Salvador, estórias de Orixás (divindades do panteão mitológico de origem africana) bem como estórias dos homens, animais, do cotidiano entrelaçadas às míticas divindades. Veiculada nas ruas com Qr code, hipertexto (blog na internet: vídeos, animações, textos, fotos) quanto pelo meio gráfico (edição de impressos). A ficção fundamenta-se no entendimento dos Odús do jogo de Ifá (as histórias ‘sem conta’ do oráculo de Orumilá).


Assinaturas Matéricas

A novela, tem característica de interagir arte literária e artes plásticas no momento (permitido pela “licença poética”) em que os personagens protagonistas das histórias decidem expressar-se, narrar uma estória ou a si próprios, de forma verbal, de forma tridimensional no espaço urbano, conseguida por meio de assemblages, instalações, rade-mades, projeções de video; assinaturas que diferem da convencional bidimensionalidade e superficialidade tipográfica. As assinaturas (“Exu”) (“OgUm”) (“oxossi”) caracterizadas aqui, por exemplo, construídas apartir de conjuntos de signos imagéticos verbais ou unidades tipográficas (letras) serão revisitadas, e reconstruídas num objeto: a letra grafitada¹ remodeladas pelos traços do Orixá. Letras “matéricas” expressando o próprio agente interventor mítico.

Sendo a assinatura extensão e marca identitária do individuo e vivendo uma cultura afro-descendente, na qual Ogum, Oxossi ou Iemanjá são nomes tão comuns, um tag de um orixá aumenta-lhe o fetiche tornando-os, em contrapartida menos míticos, num movimento inverso ao que acontece a diversos personagens da vida urbana que se expressam no espaço midiático das vias publicas, espaços/oráculos por onde verbalizam AC’s, Faustino’s, Dimak’s, Fael’s 1°, Pinel’s, Peace’s, Limpo’s, Siron Franco’s, Bel Borba’s, Leonel’s Mattos, GIA’s, Meio’s Fio, Denis Sena’s, Izolag’s, Anada’s, Renatos’da Silveira, Daim’s, Banksy’s, Marcos Costa’s, personagens que tornam-se cada vez mais míticos a cada traço, existindo cada vez mais na esfera urbana e no cotidiano do imaginário civil.

1 “Letra Grafitada” seria, para este estudo, a parte textual do graffiti. Não serão levados em conta os desenhos grafitados, mas apenas aqueles que são compostos de letras, mesmo quando dstituídas de seu aspecto semântico. De fato, grande parte dos grafites tipográficos perdem leiturabilidade (capacidade de reconhecimento do conteúdo da informação) e, em alguns casos, perdem também a legibilidade (capacidade de identificação de cada letra), transformando-se, assim, em imagem apesar de serem compostos por letras. (Valadares, 2006) As assinaturas serão “escritas” em locais da cidade de Salvador num cronograma, via ou espaço publico relevantes ao capítulo referente, começando com as intervenções de exu nas encruzilhadas e portões, seguindo com os demais orixás assinando em diversos bairros, linkando a estória às origens e peculiaridades do local escolhido. (Ex.: Exu – As Sete portas; Ossain detem Oxossi – Sussuarana nova; Oxossi e a velha Sussuarana –Sussuarana Velha. Ossain e o segredo do Mata Maroto – Federação).


“(...) Tudo o que se encontra na língua demótica
ali foi vertido pela língua hierática.
O hieróglifo é a raiz necessária do caractere.
Todas as letras foram, em sua origem,
signos e todos os signos foram, primeiramente, imagens.
A sociedade humana, o mundo, o homem inteiro estão no alfabeto.
A maçonaria, a astronomia, a filosofia,
todas as ciências têm aí seu ponto de partida,
imperceptível, porém real;
e assim deve ser. O alfabeto é uma fonte...
...assim, primeiramente, a casa do homem e sua arquitetura;
depois o corpo do homem, sua estrutura e suas deformidades;
em seguida a justiça; a música; a igreja, a guerra, a colheita;
a geometria; a montanha; a vida nômade, a vida enclausurada;
a astronomia; o trabalho e o repouso; o cavalo e a serpente;
o martelo e a urna que se ajeitam e se unem e com os quais se faz o sino;
as árvores, os rios, os caminhos; enfim, o destino e Deus.
Eis o que contém o alfabeto.
Victor Hugo – Carnets de Voyage

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