terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Exu, orixá mensageiro

















O primeiro Orixá, Exu, talvez o mais conhecido dos orixás. Conhecido em todos os pontos onde a mitologia orixá faz morada, no continente africano ou nos paises da diáspora negra, é protagonista do primeiro ato, como não poderia deixar de ser, já que carrega desde seu passado mítico as obrigações de alimentar-se e ser saudado primeiro, atribuições também no que diz respeito à manutenção da ordem, da interação, do toque , do contato, do cruzamento, da comunicação, do movimento.

As intervenções urbanas e os textos decorrentes desse primeiro ato seguiram fundamentalmente de três perguntas:


a) Mas o que usaria um Orixá para grafitar seu nome no espaço?


Obviamente não com tinta somente. Segui basicamente buscando compreender aspectos como limites e movimentações identitárias do Orixá, investigando sobre suas matérias-primas.

b) Sobre os limites de Exú... (?)

Como um porteiro, carteiro, entregador, seu limite é a porta. É o primeiro a chegar para abrir os portões sendo o último a sair, penetrando pouco a intimidade de ambientes fechados. Pouco conhece de quartos, cozinhas. Menos ainda entende de banheiro, sótãos e porões. Guarda e fiscal observa quem entra e quem sai. Como entra e como sai, quando entra e quando sai, com o que entra e com o que sai. Conhece os homens pelos seus atos e movimentos, expressões faciais, pelo que entra e sai da sua boca bem como pelo lixo que produz. Conhece todas as formas dos corpos no espaço, pela fachada desconhecendo porem seu interior até que este seja exposto. Julga um livro não só pela capa, mas por todas as suas características formais e o que se comenta dele, conhece todas as histórias sem precisar lê-las, pois participa de todas elas. Sendo exclusivamente dominador do ambiente externo, do espaço aberto, Exu sente-se atraído para além de seus domínios. Habita onde os fluxos se cruzam estando em praticamente todos o lugares, da terra a lua, do Orum ao Ayê. Ainda assim limita-se a porta e após esta, seu fetiche: saber, olhar para dentro, alimentar-se, conhecer, como um carteiro que espera a porta, esperando ver a abertura da mensagem que entregou.

c) Mas qual seria o movimento de Exu?

“...inspetor geral do axé, transita todos os cantos e dobras da criação, tanto do orún (céu) quanto no ayê (terra) duas dimensões paralelas que dialogam.” Trecho do livro Exú em Debate Seu movimento faz a ligação entre os vários reinos do cosmos, torna possível que uma árvore entre pelos olhos de um homem passe por sua boca e seja plantada em uma semente entre as orelhas do outro. Dobra o espaço. Mergulhado nele, sabe apenas que pode estar em todo o lugar simultaneamente como se qualquer distancia habitasse um único ponto. Teletransportando-se, pipoca simultaneamente nos cruzamentos sem conta. De ondas, de pontos, de linhas, de planos, de édros e verbos. Como patrono da linguagem captura da idéia do próprio emissor e transporta-a como uma carta, dobrada, condensada, embalada até o receptor final desconsiderando a noção de distancia no espaço físico, unindo o Verbo do emissor, sua escrita, a história contada e o leitor num único ponto.

Conceitos, referências e desdobramentos

“Quinze caras lá fora diversos calibres
Eu apenas com uma treze automática
Sou eu mesmo e eu
Meu Deus e meu Orixá.”

Homem na Estrada, Racionais MC’s


“O artista é aquele que tem por obrigação trazer a tona o novo, o impensável, a nova técnica, o novo estilo uma releitura ou algo que se reconheça como autêntico e original, mesmo que sua criação não esteja dentro dos padrões de beleza desejados pelo mercado das artes. Porém para se obter esta tão desejada autenticidade é necessário estudar. As formas as cores, as texturas os suportes os volumes, as palavras... seja lá qual for o suporte utilizado pelo criador-artista.” ¹

“O título e trecho da canção, dos racionais MC’s revela um dialogo da ancestralidade contida no insight do artista e na sua criação, um exemplo de transcendência do estado físico da obra que pode falar por uma boca que não é só do artista, esculpir com mãos que não são somente as dele, o escrever, o pensar, o agir. Abrir a boca ancestral inconsciente que permite a expressão de diversas formas artísticas.” ²


¹ e ² trecho do livro Exú em Debate


Orí,
O supremo, o alto, a cabeça.


Orí, na etimologia Iorubá significa: Cabeça, morada do alto. Em alguns casos refere-se ao Deus supremo, Olodumaré ou Olorum.
"E, para inicio e fim de tudo, movimento...” é o primeiro capitulo da serie “Ori”, uma novela que contará nas ruas da cidade de Salvador, estórias de Orixás (divindades do panteão mitológico de origem africana) bem como estórias dos homens, animais, do cotidiano entrelaçadas às míticas divindades. Veiculada nas ruas com Qr code, hipertexto (blog na internet: vídeos, animações, textos, fotos) quanto pelo meio gráfico (edição de impressos). A ficção fundamenta-se no entendimento dos Odús do jogo de Ifá (as histórias ‘sem conta’ do oráculo de Orumilá).


Assinaturas Matéricas

A novela, tem característica de interagir arte literária e artes plásticas no momento (permitido pela “licença poética”) em que os personagens protagonistas das histórias decidem expressar-se, narrar uma estória ou a si próprios, de forma verbal, de forma tridimensional no espaço urbano, conseguida por meio de assemblages, instalações, rade-mades, projeções de video; assinaturas que diferem da convencional bidimensionalidade e superficialidade tipográfica. As assinaturas (“Exu”) (“OgUm”) (“oxossi”) caracterizadas aqui, por exemplo, construídas apartir de conjuntos de signos imagéticos verbais ou unidades tipográficas (letras) serão revisitadas, e reconstruídas num objeto: a letra grafitada¹ remodeladas pelos traços do Orixá. Letras “matéricas” expressando o próprio agente interventor mítico.

Sendo a assinatura extensão e marca identitária do individuo e vivendo uma cultura afro-descendente, na qual Ogum, Oxossi ou Iemanjá são nomes tão comuns, um tag de um orixá aumenta-lhe o fetiche tornando-os, em contrapartida menos míticos, num movimento inverso ao que acontece a diversos personagens da vida urbana que se expressam no espaço midiático das vias publicas, espaços/oráculos por onde verbalizam AC’s, Faustino’s, Dimak’s, Fael’s 1°, Pinel’s, Peace’s, Limpo’s, Siron Franco’s, Bel Borba’s, Leonel’s Mattos, GIA’s, Meio’s Fio, Denis Sena’s, Izolag’s, Anada’s, Renatos’da Silveira, Daim’s, Banksy’s, Marcos Costa’s, personagens que tornam-se cada vez mais míticos a cada traço, existindo cada vez mais na esfera urbana e no cotidiano do imaginário civil.

1 “Letra Grafitada” seria, para este estudo, a parte textual do graffiti. Não serão levados em conta os desenhos grafitados, mas apenas aqueles que são compostos de letras, mesmo quando dstituídas de seu aspecto semântico. De fato, grande parte dos grafites tipográficos perdem leiturabilidade (capacidade de reconhecimento do conteúdo da informação) e, em alguns casos, perdem também a legibilidade (capacidade de identificação de cada letra), transformando-se, assim, em imagem apesar de serem compostos por letras. (Valadares, 2006) As assinaturas serão “escritas” em locais da cidade de Salvador num cronograma, via ou espaço publico relevantes ao capítulo referente, começando com as intervenções de exu nas encruzilhadas e portões, seguindo com os demais orixás assinando em diversos bairros, linkando a estória às origens e peculiaridades do local escolhido. (Ex.: Exu – As Sete portas; Ossain detem Oxossi – Sussuarana nova; Oxossi e a velha Sussuarana –Sussuarana Velha. Ossain e o segredo do Mata Maroto – Federação).


“(...) Tudo o que se encontra na língua demótica
ali foi vertido pela língua hierática.
O hieróglifo é a raiz necessária do caractere.
Todas as letras foram, em sua origem,
signos e todos os signos foram, primeiramente, imagens.
A sociedade humana, o mundo, o homem inteiro estão no alfabeto.
A maçonaria, a astronomia, a filosofia,
todas as ciências têm aí seu ponto de partida,
imperceptível, porém real;
e assim deve ser. O alfabeto é uma fonte...
...assim, primeiramente, a casa do homem e sua arquitetura;
depois o corpo do homem, sua estrutura e suas deformidades;
em seguida a justiça; a música; a igreja, a guerra, a colheita;
a geometria; a montanha; a vida nômade, a vida enclausurada;
a astronomia; o trabalho e o repouso; o cavalo e a serpente;
o martelo e a urna que se ajeitam e se unem e com os quais se faz o sino;
as árvores, os rios, os caminhos; enfim, o destino e Deus.
Eis o que contém o alfabeto.
Victor Hugo – Carnets de Voyage

sábado, 17 de janeiro de 2009

Laroyê

A Primeira peça/assinatura da serie Orí esteve exposta na exposição "Sala Aberta" na galeria G. Buffone Arte Contemporânea, de 11/11 a 5/12 de 2008.

Uma porta que leva à encruzilhada do bairro do canela nas coordenadas: Latitude 12°59'31.51" Sul / longitude 38°31'17,49" Oeste.