

O primeiro Orixá, Exu, talvez o mais conhecido dos orixás. Conhecido em todos os pontos onde a mitologia orixá faz morada, no continente africano ou nos paises da diáspora negra, é protagonista do primeiro ato, como não poderia deixar de ser, já que carrega desde seu passado mítico as obrigações de alimentar-se e ser saudado primeiro, atribuições também no que diz respeito à manutenção da ordem, da interação, do toque , do contato, do cruzamento, da comunicação, do movimento.
As intervenções urbanas e os textos decorrentes desse primeiro ato seguiram fundamentalmente de três perguntas:
a) Mas o que usaria um Orixá para grafitar seu nome no espaço?
Obviamente não com tinta somente. Segui basicamente buscando compreender aspectos como limites e movimentações identitárias do Orixá, investigando sobre suas matérias-primas.
b) Sobre os limites de Exú... (?)
Como um porteiro, carteiro, entregador, seu limite é a porta. É o primeiro a chegar para abrir os portões sendo o último a sair, penetrando pouco a intimidade de ambientes fechados. Pouco conhece de quartos, cozinhas. Menos ainda entende de banheiro, sótãos e porões. Guarda e fiscal observa quem entra e quem sai. Como entra e como sai, quando entra e quando sai, com o que entra e com o que sai. Conhece os homens pelos seus atos e movimentos, expressões faciais, pelo que entra e sai da sua boca bem como pelo lixo que produz. Conhece todas as formas dos corpos no espaço, pela fachada desconhecendo porem seu interior até que este seja exposto. Julga um livro não só pela capa, mas por todas as suas características formais e o que se comenta dele, conhece todas as histórias sem precisar lê-las, pois participa de todas elas. Sendo exclusivamente dominador do ambiente externo, do espaço aberto, Exu sente-se atraído para além de seus domínios. Habita onde os fluxos se cruzam estando em praticamente todos o lugares, da terra a lua, do Orum ao Ayê. Ainda assim limita-se a porta e após esta, seu fetiche: saber, olhar para dentro, alimentar-se, conhecer, como um carteiro que espera a porta, esperando ver a abertura da mensagem que entregou.
c) Mas qual seria o movimento de Exu?
“...inspetor geral do axé, transita todos os cantos e dobras da criação, tanto do orún (céu) quanto no ayê (terra) duas dimensões paralelas que dialogam.” Trecho do livro Exú em Debate Seu movimento faz a ligação entre os vários reinos do cosmos, torna possível que uma árvore entre pelos olhos de um homem passe por sua boca e seja plantada em uma semente entre as orelhas do outro. Dobra o espaço. Mergulhado nele, sabe apenas que pode estar em todo o lugar simultaneamente como se qualquer distancia habitasse um único ponto. Teletransportando-se, pipoca simultaneamente nos cruzamentos sem conta. De ondas, de pontos, de linhas, de planos, de édros e verbos. Como patrono da linguagem captura da idéia do próprio emissor e transporta-a como uma carta, dobrada, condensada, embalada até o receptor final desconsiderando a noção de distancia no espaço físico, unindo o Verbo do emissor, sua escrita, a história contada e o leitor num único ponto.

